terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Curriculum — Mario Benedetti (Poema)

A toada é bem simples
você nasce
contempla atribulado
o azul avermelhado do céu
o pássaro que emigra
o besouro tonto
que o teu sapato amassará
valente

você sofre
reclama por comida
e por costume
e por obrigação
chora limpo de culpas
extenuado
até que o sonho te desqualifique

você ama
se transfigura e ama
por uma eternidade tão provisória
que até o orgulho se torna terno
e o coração profético
se converte em escombros

você aprende
e usa o aprendizado
para tornar-se lentamente sábio
para saber que o mundo no fim é isso
em seu melhor momento uma nostalgia
em seu pior momento um desamparo
e sempre sempre um rolo,
então
você morre.


***

Traduzido por Herman Schmitz
Da Antologia Poetica, 1986.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

As Flores das Trevas — Villiers de L'Îsle-Adam (Conto breve)



As Flores das Trevas

Ao Senhor Léon Dierx

Pessoas de bem, vocês que passam:
Rezem pelos mortos!
Inscrição à margem de uma estrada




Oh, os belos entardeceres! Em frente os brilhantes cafés dos bulevares, nas varandas das confeitarias da moda, que mulheres elegantes em seus trajes coloridos, dando um tom alegre para as ruas.

E eis aqui as pequenas vendedoras de flores, circulando com suas frágeis cestinhas.

As belas desocupadas aceitam essas flores perecíveis, assustadas, misteriosas...

— Misteriosas?

— Sim, com certeza!

Existe, saibam, sorridentes leitoras –, existe aqui mesmo em Paris uma certa agência que tem acordos com vários agentes funerários de luxo, e inclusive com coveiros, para despojar aos defuntos recentes, não deixando que se murchem inutilmente nas sepulturas todos esses magníficos ramos de flores, essas coroas, essas rosas que, às centenas, o amor filial ou conjugal deposita diariamente nas sepulturas.

Estas flores quase sempre permanecem esquecidas depois das cerimônias fúnebres. Não se pensa mais nelas; tem-se pressa de voltar. Se compreende!

É então que os nossos amáveis enterradores se mostram mais alegres. Não esquecem as flores destes senhores! Não estão nas nuvens; são gente prática. Recolhem-nas às braçadas, em silêncio. Jogam apressadamente por cima do muro, sobre uma carroça já preparada, para eles é coisa de um instante.

Dois ou três dos mais inteligentes e esclarecidos transportam a carga preciosa para alguns floristas amigos, os quais com suas mãos de fada, distribuem esses melancólicos despojos de mil modos distintos: em feixes enlaçados, em vasinhos sortidos e inclusive em rosas isoladas.

Logo chegam as pequenas floristas noturnas, cada uma com sua cestinha. Pronto circulam incessantemente, com as primeiras luzes das ruas, pelos bulevares, pelos terraços brilhantes, pelos mil e um lugares de prazer.

E jovens ociosos e desejosos de serem agradáveis às elegantes, para as quais sentem algum desejo, compram essas flores a preços altos e as oferecem às suas damas.

Estas, com os rostos maquiados, as aceitam com um sorriso indiferente e as conservam na mão, ou as colocam no corpete.

E os reflexos do gás empalidece os rostos.

De forma que estas criaturas-espectros, adornadas assim com as Flores da Morte, levam, sem saberem, o emblema do amor que elas deram e do amor que elas recebem.


* * *

Tradução de Herman Schmitz
Título original: Contes cruels
Philippe-Auguste Villiers de L'Îsle-Adam, 1883.